Começou por ter dificuldade em lembrar-se de coisas simples: recados, nomes de pessoas que tinha a certeza de conhecer, sítios onde tinha de ir, coisas que tinha para fazer.
Não ligou muito. Atribuiu ao cansaço e ao peso da idade. Afinal, os anos passam, quer se queira, quer não.
Foi à farmácia e a doutora vendeu-lhe umas ampolas para o cérebro. Magnésio, disse ela. Faziam muito bem e ajudavam a rejuvenescer as células.
Tomou duas caixas mas as memórias teimavam em fugir-lhe.
Até ao dia em que se esqueceu de abrir a porta ao Pepe – o seu rafeiro fiel e único companheiro há mais de doze anos – e só o uivar desgostoso do canito, farto de estar ao frio e à chuva que começou a cair por volta da meia-noite, o tirou da cama num susto para o ir recolher.
Nessa noite custou-lhe a pegar de novo no sono. Levantou-se por volta das cinco da manhã e às seis já estava à porta do Centro de Saúde para garantir que arranjava uma consulta.
O médico perguntou-lhe a idade e fez-lhe uns testes próprios para quem chega à beira dos setenta sem grandes sobressaltos. Fez-lhe mais perguntas. E mais perguntas. Até à fatal, a que sempre receara ouvir:
- Ó Senhor Alberto, você não tem família?
Não. Não tinha família, nem próxima nem afastada. Nem primos, nem sobrinhos, nem afilhados. Nada.
- E amigos?
Bom… tinha tido alguns. Ao longo da vida. Não muitos. Mais colegas de trabalho do que propriamente amigos. Amigos do peito, se assim se pode dizer, tivera o Almerindo, camarada de tropa que o salvara de uma bala cega numa picada em Angola, nos idos dos anos sessenta quando a guerra lhe comera a juventude. E o Santos, companheiro de bancada na oficina, parceiro na partilha da fresadora, na rotina diária do ganha-pão. Com o Santos também ia às meninas. Geralmente ao sábado à noite, nem todos os sábados, só quando podiam. Depois, o Santos casou e acabaram-se as noitadas a dois. Ainda tentou aliciar o Almerindo mas em vão porque o Almerindo fizera uma jura de nunca pagar para “amandar uma pinocada”!
Tanto um como o outro já lá estavam, tinham ido à sua frente para a terra da verdade.
- Pois é, pois é… - e o doutor franzia o sobrolho, preocupado.
Mandou-o fazer exames. Análises, TAC, uma prova de esforço, mais uma ressonância magnética. Gastou uma mão cheia de dinheiro e continuou a tomar ampolas de magnésio, embora com resultados muito fracos. A única vantagem é que tinha menos cãibras nas pernas, de noite.
Por fim, estava passado quase um ano desde que começara naquela vida, acabou por lhe ser diagnosticada a doença, sem sombra para dúvidas. O doutor dissera-lhe o nome mas assim que saiu do consultório, a designação esvaiu-se, apagou-se e passou a fazer parte das coisas de que não se lembrava. Só lhe ficou a martelar a ideia de que tinha um nome arrevesado e não tinha cura nem havia volta a dar. Ia continuar a esquecer-se de tudo, até ao dia em que a sua memória fosse apenas uma mancha branca, um vasto lençol estendido sobre a sua vida passada, apagando-lhe o prazer das boas recordações e a mágoa das más.
O médico receitou-lhe mais medicamentos, mandou-o exercitar o cérebro, ler, fazer palavras cruzadas. Encaminhou-o para a Segurança Social, a fim de tratar de um apoio para quando a doença já não lhe permitisse viver sozinho.
A sua primeira reacção foi de medo que foi crescendo até ao nível do pânico. Depois acalmou-se.
Voltou para casa e enquanto grelhava uma tira de entremeada para o almoço, olhou em redor e sentiu-se melhor quando percebeu que reconhecia todos os objectos, sabia como fazer uma refeição, ainda sabia que aquele instrumento era um garfo e aqueles pauzinhos eram fósforos.
Agora bastava-lhe não se esquecer de que era preciso tirar a pele daquelas bolas acastanhadas, antes de as meter dentro de água, ao lume. Elas tinham nome, certamente que tinham. E ele sabia-o. Logo se lembraria.
Nessa tarde, saiu e foi à papelaria do Centro comprar umas quantas folhas de etiquetas autocolantes. Voltou para casa e sentou-se na sala, a escrever o nome de todos os objectos que o rodeavam. Pela noite dentro foi colando etiquetas um pouco por toda a casa, identificando mesas e cadeiras, sofás e armários, pratos e copos, a pasta dos dentes, a caixa de guardar os óculos.
Em algumas coisas foi deixando uma folhinha anexa, explicando a utilização a dar-lhes – o sal é para pôr uma pitada na comida, a substância daquela caixa é para passar nos sapatos e esfregar com aquele objecto que se chama escova; o ferro de engomar queima mas é preciso estar ligado pelo fio aos buraquinhos da tomada, na parede.
Por fim, alinhou as caixas dos diferentes comprimidos e colou em cada uma a respectiva etiqueta com a dose diária a tomar. E no armário por cima do lava-louça, na cozinha, e no espelho da casa de banho, dois avisos iguais: “Vai tomar os comprimidos!”
Sentiu-se contente. Ia bater a doença. Ia vencê-la pelo cansaço.
Já a manhã clareava quando se sentou a escrever a última recomendação que titulou em maiúsculas centradas ao cimo da página - MEMORANDO: “Se te esqueceste de tudo o resto e não sabes o que estás aqui a fazer, chegou a hora de partires. Veste-te, penteia-te, solta o Pepe e vai buscar todos os teus remédios que estão na bancada da cozinha. Mistura-os e engole-os com um copo de água bem cheio. Depois senta-te no sofá, liga a televisão e espera que o tempo passe.”
Pregou esta folhinha ao abajur do candeeiro da mesa-de-cabeceira e foi à sua vida, sem se preocupar mais com a falta de memória.




